segunda-feira, 26 de julho de 2010

À garota do ônibus

Hoje voltando do trabalho eu te vi. Eu estava sentado perto da janela e absorto na minha leitura de Agosto, do Rubem Fonseca, e ouvindo Super Furry Animals no meu iPod. Quando levanto a cabeça te vejo de pé, há uns dois ou três metros de mim, também ouvindo música. Jaqueta jeans comprida, uma blusa listrada em horizontal, mas que deixava parte da tua barriga de fora, e calça jeans. Tua pele clara, teu rosto liso e de formas perfeitas, que parece ter sido desenhado meticulosamente com muitos cuidados. A boca de traços finos. Os olhos joviais e serenos de olhos castanhos, que denotam uma pessoa de bem com a vida, nem muito séria, nem muito boba. Não deve ter mais que 25 anos, mas nao me surpreenderia se fosse mais velha ou até mesmo ainda não tivesse passado da segunda década de vida. Você estava cantarolando baixinho, e eu só podia ver os movimentos da tua boca sem ouvir o que cantava, mas naquele momento julguei gostar do que você estava escutando. Você estava de perfil, com seus longos cabelos loiros a mexer com o balanço do ônibus. Quando você se vira eu vejo um piercing no teu nariz. E você a continuar cantando. Não consegui mais ler. Neste momento percebo que começou a tocar Let The Wolves Howl At The Moon, uma música de melodia perfeita para a ocasião. A ocasião da paixão repentina e implacável.

Eu não gosto de ficar encarando sem parar. Desvio os olhos e depois volto a olhar. Fiz isso contigo. Fingi olhar para os lados, para fora do ônibus, para outras pessoas que também estavam ali dentro. Mas sempre voltava os olhos a você, mesmo que no reflexo da janela do ônibus.

Então você me notou.

Você olhou para mim e nao desviou o olhar. Eu também, contrariando minha timidez, olhei para você e não desviei. Não durou mais que 3 segundos, mas parecia ter durado horas. Você não esboçou nenhuma reação, assim como eu. Nenhum sorriso de ambos. Você se virou e continuou ouvindo tua música. Uma amiga tua chegou no ônibus e vocês ficaram conversando. Neste momento eu desliguei meu iPod e coloquei o livro dentro da mochila. Queria ouvir a tua voz. Não ouvi a conversa, mas percebi que você estava contando para tua amiga que havia terminado um relacionamento que não estava bom para você. Reparei outras vezes você olhando para mim, assim como tua amiga, que logo após eu ceder meu lugar para descer no meu ponto, o ocupou, enquanto você permaneceu de pé.

Antes de descer eu pensei em olhar para você novamente. E olhei. Como numa dessas comédias de situações, assim que tirei meus olhos de você reparei que você olhou para mim antes de eu descer. Tentei fazer com que nossos olhares se encontrassem novamente, mas assim que de novo olhei para você, então você já não estava mais olhando para mim.

Não costumo pegar aquele mesmo ônibus. Não sei se você costuma pegá-lo também. Sei somente que você mora alguns pontos depois de onde eu desço. Isso é, se é que você realmente mora por ali, pois podia não estar indo para casa, e sim para outro lugar.

Eu me apaixonei por você assim que eu te vi. E mesmo que eu nunca tenha a oportunidade de te dizer isso, ao menos você me fez refletir algumas coisas que precisavam ser pensadas.

Um beijo bem carinhoso para você.

3 shots:

Vivi disse...

Nossa... essa menina gostaria de ler lido isso.
Gostei do seu blog! Posso voltar por aqui?
Um abraço!

Vivi disse...

Então eu voltei! :)
Eu encontrei o blog pelo Facebook. Você é amigo do meu irmão (Fabrício). Até nos conhecemos, mas há muitos anos, quando você morava aqui em BH (na casa do Rafa?). Deve ter sido num daqueles churrascos malucos dos meninos, ao som de Raimundos (cantadas loucamente pelos meninos). Nossa, muitos anos mesmo!
Pois é! Passe lá pelo meu blog também, pra "tomar um ventinho"!
Abraço!

Nine disse...

Certos olhares deveriam deixar rastros. E alguns reencontros podiam ser obrigatórios...